quarta-feira, 11 de março de 2015

Classe média pode dar cadeia

O mais novo pecado no Brasil é pertencer à classe média. É um crime! E se você faz parte desse grupinho mesquinho e elitista você não é digno de ter uma opinião política. Detalhe importante é que durante o governo petista, segundo eles próprios exaltam, a maioria dos brasileiros "passou" da pobreza pra classe média, pelo menos essas eram as manchetes que apareciam na política internacional, aclamando o Santo Lula, salvador da pátria. Isso sim é hipocrisia. POUPEM-ME! 

A primeira casa que morei desde que nasci até os 4 anos, no Rio de Janeiro, era carinhosamente chamada de "Buraco quente" (tirem suas próprias conclusões), a casa não era nossa, mas sim da minha avó. Minha família tinha uma pizzaria em frente a casa para ajudar na renda. Nessa época nós tínhamos apenas um carro, um Fiat Uno (e, acredite, esse carro foi o nosso "upgrade"). Meu pai tinha que nos levar para todos os lugares o que era relativamente fácil porque ele, "peão" na empresa que trabalhava, saía do trabalho pontualmente as 17horas e logo já estava em casa. 

Cada vez que meu pai subia de cargo na empresa, mais tarde ele chegava em casa e podíamos, eventualmente, comprar uma coisa ou outra que antes era difícil. Com isso conseguimos nos mudar para um apartamento simples: dois quartos, uma vaga na garagem. Tudo bem porque nós só tínhamos um carro mesmo: outro Fiat Uno, modelo mais recente. Por anos, esse foi o único modelo de carro da minha família. Eu e minha irmã estudávamos em colégio particular, mas era o colégio da minha tia, onde minha mãe era professora, portanto, meus pais não precisavam pagar por isso. Moramos ali por quase dez anos e meus pais só terminaram de pagar pelo apartamento quando nos mudamos para São Paulo, anos depois. 

A vinda para São Paulo se deu por conta do trabalho do meu pai, nessa época ele já ocupava cargos de mais destaque. Compramos uma casa, a maior que nós já havíamos morado até então: 3 quartos e mais de 2 banheiros. Era um luxo que não estávamos acostumados a ter. Meus pais matricularam a mim e a minha irmã em um colégio nada barato, mas era a educação que as pessoas aqui recebiam e eles não queriam que ficássemos para trás, tenho certeza que eles fizeram muitos sacrifícios para conseguir isso. Anos depois eles também tiveram condições de pagar a faculdade para mim e para minha irmã, e eu sei que não foi barato. Abro aqui um parêntese para compartilhar da dor de milhares de estudantes esse ano que não conseguiram efetuar suas matrículas nas faculdades porque nossa presidente cortou o FIES. 

Para tentar resumir a história depois de anos, mas muitos anos mesmo. Depois de meu pai não chegar mais em casa sujo de graxa das máquinas, mas chegar às 20h (às vezes 22h) e ir trabalhar de social, depois dele dedicar mais de 15 anos de trabalho dentro de uma mesma empresa e ser reconhecido por isso, depois, com a ajuda da minha mãe que por sua vez também trabalha ainda, terem poupado e investido o dinheiro que ganharam através de seus trabalhos, aumentando seus bens e poder aquisitivo, hoje a realidade é outra sim. 

Nossa casa é grande (apesar de eu já ter visto bem maiores), moramos em um condomínio e cada um tem seu carro para ir trabalhar. Meus pais têm a possibilidade de continuar ajudando meus avós, pagando uma “mesada” para eles, ajudam a família sempre quando precisam (e também são ajudados quando precisam) e nós temos uma vida relativamente confortável. Não temos dinheiro sobrando. Eu sei que quando eu resolver sair de casa poderei contar com a ajuda deles, mas vou ter que batalhar para construir meus próprios bens, porque eles não têm dinheiro para me comprar uma casa nova e mobiliada,  talvez eu mesma tenha que começar de algum “buraco quente” por aí. 

Eu tenho consciência de que eu não sou uma vítima e, portanto, não tenho que e nem irei me colocar nesse papel mas POUPEM-ME de ser colocada no banco dos réus. Não olhem para mim e julguem que eu tenho tudo de “mão beijada” e que por isso não tenho condições moral de me colocar no lugar de alguém necessitado, isso se chama compaixão e o fato de pertencer à classe média não faz de mim uma pessoa sem compaixão, sem caráter ou sem sensibilidade à falta de oportunidade de muitos. Ou que qualquer posição política que eu tenho é visando os meus próprios interesses de classe média. 

O que os acusadores deixam passar é que quem chega à classe média nunca teve regalias na vida nem nunca nasceu em berço de ouro. Quem chega aqui, chega com muito trabalho e esforço, competência e força de vontade. Buscando uma melhor condição de vida. E todos os bens que conseguem com dificuldade adquirir são declarados no imposto de renda e descontados, bem descontados por isso. Os grandes ricos e milionários ou já nasceram com a sua vida e das futuras gerações feita, sem precisar de grandes esforços para administrar o que por “osmose” receberam ou são aqueles que tiram de nós o que conseguimos com nossos trabalhos, os mesmos que oprimem os pobres para que eles não cheguem a lugar nenhum. Esses nem sequer passam pela classe média, a ascensão deles é imediata e, muitas vezes, imoral também. Do dia para noite suas contas bancárias triplicam. Isso nunca aconteceu aqui em casa, já aconteceu na sua? 

Eu detesto generalizações mas tenho um certo receio do que alguns (não todos porque cada um tem seus motivos e interpretações para lutar por um ideal) desses acusadores da classe média não fariam diante de uma grande quantidade de dinheiro. Eu já vi pessoas assim de perto, pessoas que abominam o dinheiro e, por consequência, todos que tem um pouco mais, mas todos os dias apostam na loteria: hipocrisia! Dinheiro fácil – ok, mas se você se deu melhor que eu, você não presta. Será que essas pessoas estão mesmo preocupadas com os mais pobres ou estão preocupadas em não serem os mais ricos? Não estou dizendo que todos pensam desse jeito, estou dizendo que existe sim esse tipo de pessoa mas também existe os que pensam nos demais (e eu não me retiro desse grupo). Seja qual for o caso, apenas uma dica: Vocês estão mirando no alvo errado.  

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