A notícia mais
comentada nas redes sociais nos últimos dias é sobre o Instituto Royal e seus
Beagles. O que nos leva, automaticamente, para a discussão do uso de animais
para testes em laboratórios. Primeiramente, eu diria que a polêmica em si é
sempre muito saudável, nenhuma grande revolução que ocasionou uma mudança
verdadeira no comportamento de uma sociedade, foi originada por causa de um
assunto que não fosse polêmico. Para haver mudanças, tem que incomodar, para
incomodar tem que dividir opiniões e, para a mudança ser eficiente para todos é
preciso saber ouvir as diferentes opiniões e analisá-las com cautela,
considerando suas posteriores consequências. A parte ruim dessa história é
justamente quando as pessoas não sabem aceitar opiniões diferentes da sua e,
ainda por cima, aproveitam da oportunidade para levantar questões que, nem
sequer estão relacionadas com o assunto. É difícil saber compreender diferentes
pontos de vista, principalmente quando vidas estão sendo pondo em questão e uma
vez que os ativistas partilham de uma paixão comum pelos animais e muitas
vezes, erroneamente, devo acrescentar, não estão nem dispostos a ouvir opinião
contrária as suas. Levando em consideração todos esses aspectos, resolvi dar a
minha opinião, pois, estando eu “em cima do muro”, quem sabe não possa ser
ouvida por ambas as partes. Antes que alguém me acuse de indecisa, eu digo que
mais vale ainda não ter uma opinião, do que defender com convicção uma ideia que
mais pode me prejudicar do que me trazer benefícios. Para começar a minha
análise eu já digo aos ativistas que sim, eu compartilho de sua paixão pelos
animais, também fico em estado de sublime encanto quando me deparo com um deles
na rua e jamais seria capaz de agredi-los. Quando os encontro mal tratados, meu
coração se parte em pedaços, e se tivesse condições, faria eu mesma alguma
coisa para ajudá-los. Quando ouço alguns especialistas afirmarem que nós somos
a classe dominadora, e os animais a classe dominada, não é que eu discorde de
tal afirmação já que, no meu ponto de vista, ela é mesmo verdadeira. Eu discordo
é da aplicação dela, uma vez que eu não acredito que isso nos dê o direito de
maltratar os animais e sim, pelo contrário, isso nos dá a obrigação de
protegê-los. Não concordo também com alguns grupos de vegetarianos que querem
aproveitar disso para me convencer que, também por esse motivo, eu não posso
mais comer carne. Primeiramente respeito a opinião de quem escolhe esse
caminho, acho seus valores dignos e acredito que seus estilos de vida sejam
mesmo saudáveis mas, no que leva em consideração esse aspecto, eu acredito
mesmo que se todos os seres-humanos aderissem a essa dieta, teríamos outro
problema para resolver. Quando a população de determinado animal excede à sua
normalidade vários problemas se desencadeiam. Em alguns lugares, a caça é
permitida para restaurar a normalidade do ecossistema. Então, desculpem-me quem
acha que meu pensamento é medieval, mas, matar para comer, em minha opinião,
nada mais é do que a lei da vida. Claro, provavelmente se eu visse tais animais
serem mal tratados, o meu lado mais “humano” e menos “animal”, falaria mais
alto, talvez, por pura aversão eu também não conseguisse comer mais carne. Mas
é por isso que eu não tenho interesse em ver como esses animais são mortos e
isso é uma opinião que eu também gostaria que fosse respeitada. Apesar disso,
volto a dizer que todo animal deve ser bem tratado por nós enquanto vivos,
independentemente de qual seja o destino deles. Por exemplo, se houvesse uma
manifestação para fazer os matadouros terem mais consideração com esses
animais, eu, sem hesitar, participaria mas, se alguém quisesse me convencer que
todos os seres humanos deveriam virar vegetarianos, eu seria contra. Estou
dizendo isso para elucidar o meu questionamento sobre o que é ou não aceitável
a nós, enquanto classe dominadora, em relação aos animais. Eu jamais compraria
um casaco de pele ou um sapato de couro, porque matar um animal para ganhar uma
bolsa, um casaco ou qualquer bem material, para mim é inconcebível. É um motivo
torpe, egoísta, asqueroso que me faz parecer menos com um humano e até com um
animal, e me põe em uma classificação ainda não inventada de vidas inferiores.
Porém, e se a morte de um animal significasse a vida de um ser humano? Você
seria contra ou a favor? Percebam que, antes de sermos a favor dos animais,
temos que ser a favor da espécie humana, lutar contra nós mesmos é um paradoxo.
Assim sendo eu digo que, assim como eu vejo animais abandonados e mal tratados
nas ruas, eu vejo também crianças. Eu vejo crianças sendo usadas para
escravidão, prostituição e eu nunca vi ninguém invadindo lugar nenhum para
tentar salvar essas crianças. É nesse ponto que eu me preocupo, na nossa
indignação com certos assuntos e nossa passividade com outros, muito mais
preocupantes. Estou querendo dizer com isso que os animais não valem a luta? De
jeito nenhum. Qualquer vida vale uma luta, mas principalmente, a vida de um ser
humano. Se a cura do câncer e de tantas
outras doenças pode hoje ser descoberta através de testes com animais em
laboratório, então eu sou a favor. Pois cada animal pode salvar a vida de uma
mãe, de um filho, de um pai, e isso não tem preço. Não acho que esses animais
devam ser gratuitamente mal tratados, acredito que eles mereçam o máximo de
qualidade de vida possível dentro do que é cabível. E, se toda essa discussão
estiver encaminhando um novo modelo científico que seja tão eficaz quanto e que
não tenha que envolver os animais, então terá valido a pena. Pois teremos usado
nosso poder de classe dominadora, enquanto seres pensantes, para trazer
benefícios e qualidade de vida não só para nós mesmos, quanto para todas as
outras espécies que nos rodeiam e nos ensinam a sermos, cada vez mais,
humanos.

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