Li uma notícia outro dia sobre
mais uma adolescente que tirou a própria vida por sofrer bullying dos amigos de
escola. O que me fez questionar mais uma vez essa vulnerabilidade adolescente.
Porque a opinião do outro a seu respeito é tão mais importante do que aquela
que você faz de si mesmo? Porque ser aceito por um grupo vale mais do que a sua
própria vida? Quando escutamos esse tipo de notícia, sentimos pena e ao mesmo
tempo revolta. É um motivo estúpido para alguém morrer, quer dizer, não sei se
há bons motivos para morrer, mas que deve haver um motivo muito importante para
tirar a própria vida, isso deve. E digo mais, esse motivo deve estar acima de
todas as coisas mais valiosas que a vida oferece: família, amigos, perspectiva,
sonhos, um futuro. E, definitivamente, quando paramos para pensar no motivo que
levou , não só essa adolescente, mas tantos outros a desistirem de tudo e dar
fim a própria vida, acredito que seja inevitável não pensar, lá no fundo, bem
depois do sentimento de pêsame que desenvolvemos por aquela família e aquela
vida que se foi tão cedo, como esses adolescentes são frágeis e às vezes até
estúpidos. A verdade é que nós esquecemos que já tivemos essa idade um dia e,
se podemos hoje analisar essa situação desse jeito é porque tivemos a estrutura
adequada quando passamos por essa fase tão turbulenta. Digo isso porque eu
mesma, lá no meu íntimo, pensei isso dessa tal menina da notícia e,
imediatamente, minha memória me levou para o passado e eu vi minha versão
adolescente na minha frente e pude analisa-la de cima a baixo e perguntei a mim
mesma: “e então? Você era essa pessoa tão bem estruturada emocionalmente e
psicologicamente que você considera ser hoje?” E a resposta foi “NÃO”, um não
bem maiúsculo mesmo, daqueles que faz você pensar: “credo, mas era tão ruim
assim?”. A verdade era que eu não estava satisfeita comigo mesma, como a
maioria dos adolescentes, e ser aceita pelo grupo era uma meta de vida. Assim fica mais fácil de entender porque
alguns adolescentes simplesmente desistem quando essa meta não é alcançada.
Lembro-me que não gostava dos
meus dentes, sempre foram grandes, o sorriso era largo e eu tinha vergonha de
mostrá-los. Sim, eu tinha vergonha de sorrir. Parece algo tão estúpido
analisado pelo meu “eu adulto” anos depois. Não me entendam errado, sempre fui
uma criança feliz, nunca tive problemas com depressão infantil mas, na escola, toda
vez que alguém me fazia rir eu levava a mão à boca para poder rir sem deixar
meus dentes à mostra. Uma vez uma amiga me perguntou por que eu sempre ria desse
jeito e foi quando eu percebi que eu não conseguiria “tapar o sol com a peneira”
porque, eventualmente, alguém iria perceber que eu estava tentando esconder
algo e, às vezes, o seu esforço de tentar esconder faz aquilo que você tanto
quer que passe despercebido ganhar mais evidência e destaque. Aos poucos,
conforme eu crescia e adquiria uma personalidade mais madura e uma autoestima
mais sólida eu pude me desfazer, um por um, dos meus ‘grilos’ adolescentes.
Começou pelo sorriso, a partir daquele dia sempre aberto, a mostra pra quem
quisesse ver e uma nova atitude começou a surgir: quem não gostasse do meu
sorriso, que não me fizesse rir. Pode
parecer coincidência mas eu nunca fui tão elogiada pelo meu sorriso como
naquela época. Aonde eu ia tinha uma pessoa, que eu nem conhecia, para me dizer
“Que sorriso bonito você tem” ou “eu nunca vi um sorriso tão contagiante quanto
o seu”. Simplesmente deixei que meu sorriso fosse visto pelo mundo e em retorno
ele foi aprovado pelo mundo.
Depois foi a vez dos óculos. Como
meu olho ressecava muito rápido quando usava lente ou eu saía e não enxergava
ou eu usava meus óculos para sair. Assumi! Resultado? Já ouvi amigas minhas
dizerem que não sairiam comigo de óculos porque chama muito a atenção dos
meninos. Eu usava o estereótipo a meu favor já que, ao ser a única menina de
óculos na balada, os meninos se aproximavam de mim dizendo que queriam me
conhecer porque sabiam que eu era diferente das outras meninas, mais
inteligente ou mais “séria”. Puro preconceito do avesso. Quer dizer, não que eu
não me considere uma mulher culta, mas não me considero mais inteligente ou
mais “séria” do que as outras que não usam óculos. Estereótipos a parte, a
conclusão foi que eu me assumi e fui aceita novamente.
Não foi diferente com a minha
altura, por muito tempo eu só podia usar salto alto para não parecer baixa de
mais. Verdade seja dita eu gosto de um salto alto, sinto-me mais elegante e
mais mulher com um e até hoje ainda é minha primeira opção mas, a diferença é
que antes eu não me permitia tirá-los do pé para nada. Alguns anos atrás fui
morar na Europa por um tempo. Não tinha carro para dirigir, ia para cima e para
baixo de ônibus e parte do tempo as ruas estavam tomadas pela neve. Salto alto
não era uma opção. E lá estava eu tendo que, sem poder escolher, assumir minha
estatura em um país onde as pessoas por natureza já eram bem mais altas do que
o considerado “alto” aqui no Brasil. Já ouviu dizer que em terra de cego quem
tem um olho é rei? Pois é! Em terra de gigantes quem é baixinha é rainha!
Hoje, algumas amigas mais
próximas dizem que minha autoestima é inabalável e elas até brincam fazendo um
trocadilho com meu nome querendo dizer que eu sou convencida. Há verdades e mentiras
em tais afirmações. A verdade é que minha autoestima é inabalável porque ela
não depende da opinião de outras pessoas nem tão pouco do meu estado emocional
ou de minha aparência física de cada dia. Eu sei que vai ter dias que eu vou me
sentir ‘a tal’ e vou querer me produzir assim como terá outros que eu não
estarei satisfeita com uma coisa ou outra. Não tem problema nenhum nisso, nem
de um jeito nem de outro eu inflamo ou murcho minha autoestima. Eu sei quem eu
sou e isso já me basta. Mas não é verdade que isso me torna uma pessoa
convencida, simplesmente porque eu não exijo que os outros tenham a mesma
opinião sobre mim que eu tenho a meu respeito. Cada um é livre pra pensar o que
quiser de mim e até expor sua opinião, se julgar necessário. Eu provavelmente
aceitarei a opinião, seja ela construtiva ou depreciativa, mas deixarei claro
que isso não altera a maneira como eu vejo a mim mesma. Eu me conheço melhor do que ninguém. Sei dos
meus defeitos e minhas qualidades e nada disso altera minha autoestima.
Por conta dessa minha
personalidade já fui requisitada, entre amigas, para escrever um livro de autoajuda.
Brincadeiras a parte também já fui questionada por uma menina, que em minha
opinião era muito bonita, sobre isso ser mais fácil para mim já que a minha
aparência me ajudava. Agradeci o elogio dela e retruquei “essa é a sua opinião
sobre mim. A diferença é que eu não espero que todas as pessoas tenham a mesma opinião
que a sua a meu respeito. Eu dou a elas a liberdade de discordar de mim e de
você sem pôr nenhum peso em seus ombros, deixando claro que elas podem ter uma
opinião sobre o que elas vêm de mim, mas que elas jamais mudarão a minha opinião
sobre mim mesma”. Isso fica mais claro quando analisamos o significado da
palavra “estima”. Estimar algo ou alguém é ter apreço, apreciação, orgulho,
afeição, sensação favorável por algo ou por alguém. Logo, autoestima é quando
você sente tudo isso por você mesma. Conseguem perceber que nada tem a ver com
estética, aparência física ou padrões de beleza? E isso fica evidente com a
observação dessa menina, que aos meus olhos era bonita mas ela não se enxergava
da mesma maneira. Então ser bonita não é garantia de boa autoestima. Às vezes o
problema não está na maneira como as pessoas te enxergam mas no que você queria
que elas vissem em você. Às vezes você não tem a perspectiva para enxergar além
e cria expectativas que ninguém exigiu de você. Era o que acontecia com o meu “eu
adolescente” ninguém nunca me disse que eu tinha que ter os dentes pequenos
para meu sorriso ser bonito, ninguém nunca me exigiu isso. É o que acontece com
a maioria dos adolescentes, eles ainda não viveram o suficiente da vida para
descobrir quem realmente são, para aprenderem a ter estima por si próprios, a
se assumirem. Tudo o que eles precisam é que os outros façam isso por eles. Por isso é um crime quando não damos a
oportunidade de uma pessoa chegar a vir a ser o que tem potencial para ser
quando nem ela mesma ainda sabe disso. É um crime quando um adolescente não tem
a oportunidade de olhar para trás e chegar à conclusão do quanto foi tolo,
porque hoje, ele consegue mostrar para o mundo quem ele é ao invés de esperar
que o mundo determine quem ele deveria ser.