segunda-feira, 29 de abril de 2013

Eu não podia ser mais ninguém


Li uma notícia outro dia sobre mais uma adolescente que tirou a própria vida por sofrer bullying dos amigos de escola. O que me fez questionar mais uma vez essa vulnerabilidade adolescente. Porque a opinião do outro a seu respeito é tão mais importante do que aquela que você faz de si mesmo? Porque ser aceito por um grupo vale mais do que a sua própria vida? Quando escutamos esse tipo de notícia, sentimos pena e ao mesmo tempo revolta. É um motivo estúpido para alguém morrer, quer dizer, não sei se há bons motivos para morrer, mas que deve haver um motivo muito importante para tirar a própria vida, isso deve. E digo mais, esse motivo deve estar acima de todas as coisas mais valiosas que a vida oferece: família, amigos, perspectiva, sonhos, um futuro. E, definitivamente, quando paramos para pensar no motivo que levou , não só essa adolescente, mas tantos outros a desistirem de tudo e dar fim a própria vida, acredito que seja inevitável não pensar, lá no fundo, bem depois do sentimento de pêsame que desenvolvemos por aquela família e aquela vida que se foi tão cedo, como esses adolescentes são frágeis e às vezes até estúpidos. A verdade é que nós esquecemos que já tivemos essa idade um dia e, se podemos hoje analisar essa situação desse jeito é porque tivemos a estrutura adequada quando passamos por essa fase tão turbulenta. Digo isso porque eu mesma, lá no meu íntimo, pensei isso dessa tal menina da notícia e, imediatamente, minha memória me levou para o passado e eu vi minha versão adolescente na minha frente e pude analisa-la de cima a baixo e perguntei a mim mesma: “e então? Você era essa pessoa tão bem estruturada emocionalmente e psicologicamente que você considera ser hoje?” E a resposta foi “NÃO”, um não bem maiúsculo mesmo, daqueles que faz você pensar: “credo, mas era tão ruim assim?”. A verdade era que eu não estava satisfeita comigo mesma, como a maioria dos adolescentes, e ser aceita pelo grupo era uma meta de vida.  Assim fica mais fácil de entender porque alguns adolescentes simplesmente desistem quando essa meta não é alcançada.

Lembro-me que não gostava dos meus dentes, sempre foram grandes, o sorriso era largo e eu tinha vergonha de mostrá-los. Sim, eu tinha vergonha de sorrir. Parece algo tão estúpido analisado pelo meu “eu adulto” anos depois. Não me entendam errado, sempre fui uma criança feliz, nunca tive problemas com depressão infantil mas, na escola, toda vez que alguém me fazia rir eu levava a mão à boca para poder rir sem deixar meus dentes à mostra. Uma vez uma amiga me perguntou por que eu sempre ria desse jeito e foi quando eu percebi que eu não conseguiria “tapar o sol com a peneira” porque, eventualmente, alguém iria perceber que eu estava tentando esconder algo e, às vezes, o seu esforço de tentar esconder faz aquilo que você tanto quer que passe despercebido ganhar mais evidência e destaque. Aos poucos, conforme eu crescia e adquiria uma personalidade mais madura e uma autoestima mais sólida eu pude me desfazer, um por um, dos meus ‘grilos’ adolescentes. Começou pelo sorriso, a partir daquele dia sempre aberto, a mostra pra quem quisesse ver e uma nova atitude começou a surgir: quem não gostasse do meu sorriso, que não me fizesse rir.  Pode parecer coincidência mas eu nunca fui tão elogiada pelo meu sorriso como naquela época. Aonde eu ia tinha uma pessoa, que eu nem conhecia, para me dizer “Que sorriso bonito você tem” ou “eu nunca vi um sorriso tão contagiante quanto o seu”. Simplesmente deixei que meu sorriso fosse visto pelo mundo e em retorno ele foi aprovado pelo mundo.

Depois foi a vez dos óculos. Como meu olho ressecava muito rápido quando usava lente ou eu saía e não enxergava ou eu usava meus óculos para sair. Assumi! Resultado? Já ouvi amigas minhas dizerem que não sairiam comigo de óculos porque chama muito a atenção dos meninos. Eu usava o estereótipo a meu favor já que, ao ser a única menina de óculos na balada, os meninos se aproximavam de mim dizendo que queriam me conhecer porque sabiam que eu era diferente das outras meninas, mais inteligente ou mais “séria”. Puro preconceito do avesso. Quer dizer, não que eu não me considere uma mulher culta, mas não me considero mais inteligente ou mais “séria” do que as outras que não usam óculos. Estereótipos a parte, a conclusão foi que eu me assumi e fui aceita novamente.

Não foi diferente com a minha altura, por muito tempo eu só podia usar salto alto para não parecer baixa de mais. Verdade seja dita eu gosto de um salto alto, sinto-me mais elegante e mais mulher com um e até hoje ainda é minha primeira opção mas, a diferença é que antes eu não me permitia tirá-los do pé para nada. Alguns anos atrás fui morar na Europa por um tempo. Não tinha carro para dirigir, ia para cima e para baixo de ônibus e parte do tempo as ruas estavam tomadas pela neve. Salto alto não era uma opção. E lá estava eu tendo que, sem poder escolher, assumir minha estatura em um país onde as pessoas por natureza já eram bem mais altas do que o considerado “alto” aqui no Brasil. Já ouviu dizer que em terra de cego quem tem um olho é rei? Pois é! Em terra de gigantes quem é baixinha é rainha!

Hoje, algumas amigas mais próximas dizem que minha autoestima é inabalável e elas até brincam fazendo um trocadilho com meu nome querendo dizer que eu sou convencida. Há verdades e mentiras em tais afirmações. A verdade é que minha autoestima é inabalável porque ela não depende da opinião de outras pessoas nem tão pouco do meu estado emocional ou de minha aparência física de cada dia. Eu sei que vai ter dias que eu vou me sentir ‘a tal’ e vou querer me produzir assim como terá outros que eu não estarei satisfeita com uma coisa ou outra. Não tem problema nenhum nisso, nem de um jeito nem de outro eu inflamo ou murcho minha autoestima. Eu sei quem eu sou e isso já me basta. Mas não é verdade que isso me torna uma pessoa convencida, simplesmente porque eu não exijo que os outros tenham a mesma opinião sobre mim que eu tenho a meu respeito. Cada um é livre pra pensar o que quiser de mim e até expor sua opinião, se julgar necessário. Eu provavelmente aceitarei a opinião, seja ela construtiva ou depreciativa, mas deixarei claro que isso não altera a maneira como eu vejo a mim mesma.  Eu me conheço melhor do que ninguém. Sei dos meus defeitos e minhas qualidades e nada disso altera minha autoestima.

Por conta dessa minha personalidade já fui requisitada, entre amigas, para escrever um livro de autoajuda. Brincadeiras a parte também já fui questionada por uma menina, que em minha opinião era muito bonita, sobre isso ser mais fácil para mim já que a minha aparência me ajudava. Agradeci o elogio dela e retruquei “essa é a sua opinião sobre mim. A diferença é que eu não espero que todas as pessoas tenham a mesma opinião que a sua a meu respeito. Eu dou a elas a liberdade de discordar de mim e de você sem pôr nenhum peso em seus ombros, deixando claro que elas podem ter uma opinião sobre o que elas vêm de mim, mas que elas jamais mudarão a minha opinião sobre mim mesma”. Isso fica mais claro quando analisamos o significado da palavra “estima”. Estimar algo ou alguém é ter apreço, apreciação, orgulho, afeição, sensação favorável por algo ou por alguém. Logo, autoestima é quando você sente tudo isso por você mesma. Conseguem perceber que nada tem a ver com estética, aparência física ou padrões de beleza? E isso fica evidente com a observação dessa menina, que aos meus olhos era bonita mas ela não se enxergava da mesma maneira. Então ser bonita não é garantia de boa autoestima. Às vezes o problema não está na maneira como as pessoas te enxergam mas no que você queria que elas vissem em você. Às vezes você não tem a perspectiva para enxergar além e cria expectativas que ninguém exigiu de você. Era o que acontecia com o meu “eu adolescente” ninguém nunca me disse que eu tinha que ter os dentes pequenos para meu sorriso ser bonito, ninguém nunca me exigiu isso. É o que acontece com a maioria dos adolescentes, eles ainda não viveram o suficiente da vida para descobrir quem realmente são, para aprenderem a ter estima por si próprios, a se assumirem. Tudo o que eles precisam é que os outros façam isso por eles.  Por isso é um crime quando não damos a oportunidade de uma pessoa chegar a vir a ser o que tem potencial para ser quando nem ela mesma ainda sabe disso. É um crime quando um adolescente não tem a oportunidade de olhar para trás e chegar à conclusão do quanto foi tolo, porque hoje, ele consegue mostrar para o mundo quem ele é ao invés de esperar que o mundo determine quem ele deveria ser.